segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Untitled.

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Ilustração: Balegas de Sousa

Tu falas, eu oiço e faço um esforço deste tamanho para não sorrir (ou será rir? ainda não sei se isto são mesmo gargalhadas, sonoras e espalhafatosas, talvez sim). E nem sempre consigo, o que é horrível porque aí começas tu. Depois, eu falo e tu ouves e a minha voz acho que tem saído um tom mais abaixo do que é habitual, também porque tenho investido em cigarros para controlar a vontade de te lançar a boca ao pescoço e os nervos também. Depois rematamos com um sorriso, eu costumo virar costas o mais rapidamente possível, não vá o chão começar a ceder – o sítio onde tenho tentado manter os pés – e isso seria horrível porque não posso perder os modos diante de ti. Ando aqui a pensar se não seria bom, um dia destes, aproveitarmos um toque acidental de mãos (também pode ser de braços, pés, pernas) e a partir daí jogar com o acaso, mais ou menos incerto mas não tão incerto assim, a ver se sempre me podias agarrar a cintura como eu tenho quase a certeza que agarras e depois seria contigo – mais para a esquerda, mais para a direita, tanto me faz. Eu por mim, nem usava batom nem nada, para não te manchar a camisa bonita (essa mesma, a azul de riscas finas) talvez só um daqueles muito suaves que nos põem com sabor a alperce. Podíamos aproveitar, não sei, diz-me tu o que achas, que eu ando aqui feita parva à tua procura nos corredores, como se morasses cá em casa, a ver se te espreito por cima da revista que comprei precisamente por causa do artigo “como conquista-lo em 10 passos” (devo dizer que tenho treinado muito pouco, quando te vejo fogem-me as regras todas e, portanto, se isto não resultar a culpa é tua que apareces à minha frente com essa camisa, com essas calças, com esse cabelo, com esse relógio, com essas olheiras de quem não dormiu porque passou a noite inteira a fazer o quê?, o quê?, a pensar em mim, diz lá). Se isto continuar assim – tu falas, eu oiço, eu falo, tu ouves e pelo meio uma confusão de sorrisos contidos – vai-se tornar altamente ridículo não aproveitarmos o próximo toque acidental para ver se sempre se nota ou não o batom de alperce na tua camisa. Garanto-te que é ridículo, se não aproveitarmos. E já agora – é a única garantia que tenho.

1 comentários:

Anónimo disse...

muito bom ;)