Domingo, 18 de Julho de 2010

Forest Fire.

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ilustração: Balegas de Sousa

Toda a vida fui um céptico. Deixei de acreditar no Pai Natal aos seis anos. Em Deus, aos onze. Em mim, aos dezoito.

...it’s a forest fire…” – indiferente à situação, Loyd Cole continuava a cantar e a dedilhar a guitarra - every time we come together - Resolvi desligar o rádio.

Fiquei só com o som do limpa pára-brisas. O do lado esquerdo, chiando, completava o seu percurso de ida e volta no exacto tempo - cumprindo o que havia sido programado. O do lado direito, subia pelo vidro até embater no corpo. Estremecia um pouco e, como que assustado, fugia para o ponto de partida. Depois, movido pela curiosidade, voltava a fazer o mesmo. Desliguei-o. Agora, ficava só o ruído da chuva.

Baixei os óculos e olhei mais perto. Azul, cor de laranja...cor-de-laranja, não. Talvez dourado. Uma cor entre laranja e dourado. Uma cor que nunca tinha visto. A toda a volta, fragmentos com textura de escama. azuis...verdes...azuis...vermelho...Fragmentos que mudavam de cor. E no meio lá estava ela - uma fada. Uma fada esborrachada no meu pára-brisas.
Tinha a face esmagada. Desfigurada. Mas reconheci o corpo. reconheci-o dos meus livros infantis; Nestes dias, por tudo e nada, voltava à infância.

Uma das asas :“flap, flap, flap” , roçava ao de leve no vidro, ao mesmo tempo que lançava salpicos dourados…alaranjados. Parou de chover. Um sonido, como os que faziam os antigos telefones quando havia interferências na linha, juntou-se ao “flap” da asa. De repente, um dos olho abriu e fitou-me, minúsculo, através do vidro. Saí do carro.

Ao contrário do que esperava, o frio não tornou a situação mais real. Corri para o bosque que ladeava a estrada. Corri durante algum tempo, até me cansar da ideia. Através das árvores via o meu carro parado.

Começou a escurecer e a escuridão empurrou-me de volta à estrada. Aproximei-me. Ao longo do vidro um rasto de cor. O ruído continuava, agora mais alto. Ela estava no capot e deslizava, lentamente, usando a asa como um remo. Despi o casaco e bati-lhe com ele várias vezes. Não olhei. Não vi as cores que se espalhavam.

Enterrei-a numa pequena cova junto a uma árvore. Uma cova como aquela que a minha mãe abriu para que eu enterrasse o meu primeiro pássaro. Cheguei a casa tarde, estavam todos à minha espera para jantar. Sentei-me à mesa. Falámos do tempo e das notícias, enquanto, no bosque, as formigas, com movimentos nervosos mas ordenados, carregavam escamas coloridas para o interior da terra.

1 comentários:

Menina do Chuveiro disse...

Que excelente :O

Gostei tanto do blogue - pessoalmente adoro adoro estórias e contos e coisinhas assim.

Vai directamente para os meus favoritos.

[E agora num tonzinho tímido não resisto a convidar que passem no meu blogue se quiserem :)]